Sol Vega, uma das participantes do time dos Veteranos do "Big Brother Brasil 26", voltou ao centro dos holofotes na noite desta segunda-feira (26) após um Sincerão daqueles que fazem a casa pegar fogo. A sister se desestabilizou ao ouvir falas de Ana Paula Renault e Juliano Floss, levou duras dos adversários e também dos internautas... e virou um dos assuntos mais comentados do X, antigo Twitter!
Mas, para além do climão ao vivo e da troca de farpas pesada, existem camadas bem mais profundas por trás de uma personagem tão icônica quanto Sol dentro do BBB. E a gente precisa falar sobre isso. Vale deixar claro: a proposta aqui não é tomar partido sobre estratégias de jogo, mas sim olhar com atenção para uma história que merece ser entendida.
Antes de voltar no tempo, um resumo rápido da dinâmica que rolou antes do resultado do segundo Paredão: brothers e sisters ficaram vendados, posicionados em roda, para uma discussão intensa.
O público escolheu oito temas, e os participantes sorteados precisavam rotular um adversário. Quem recebia a “bombinha” tinha que adivinhar, depois de tirar a venda, quem havia enviado o item. Se acertasse, o remetente levava o banho de gosma. Se errasse, a própria vítima encarava o banho de “sangue” cenográfico.
Tudo começou quando Ana Paula escolheu Sol como a mais inútil da casa. A ex-BBB 4 achou que Juliano, com quem já tinha tido atritos, fosse o responsável.
“Eu fiquei muito surpresa no primeiro Sincerão que a gente teve. Do nada, ela começou a me atacar, gritar e não me deixou explicar, invadiu meu espaço sem a gente ter tido nenhuma contenda. Então, é aquela pessoa que tenta cavar alguma coisa, criar algo da própria cabeça e isso, pra mim, num jogo dessa magnitude, se transforma numa postura inútil”, disparou Ana.
Sol rebateu: “A gente teve embate, sim. Quando briguei com ela [Milena], você tomou as dores dela. Você tem medo de brigar comigo. Não sei por quê, mas você fica me analisando... você não tem coragem!”. Ana devolveu: “Você tem que se recolher à sua insignificância. Tenho problemas maiores".
A discussão escalou quando Sol questionou: “Só porque eu falo alto você vem jogar isso pra mim?”. E depois provocou: “Só porque você é loirinha você pode falar!”. Milena entrou na conversa: “Tudo dela é racismo, meu Jesus Cristo. Eu sou preta e você me julgou do mesmo jeito. Me poupe. Para de julgar como preto e branco".
O clima pesou ainda mais quando Juliano se intrometeu, tentando interromper a discussão. Isso foi outro gatilho para Sol, que levantou e foi até ele: “Você é um menino branco e não passou o que eu passei na minha vida. Você só tem 21 anos. Quando você tava na barriga da sua mãe, eu tava sofrendo pra caramba. Você sabe conversar porque seus pais te ajudaram, estudou…”.
Juliano respondeu: “Respeito sua história. Mas respeita a dinâmica. Você só grita". Em meio ao embate, Ana Paula chegou a perguntar se Sol queria bater nela, o que deixou a veterana ainda mais abalada: “A negra, quando fala, é baixaria! Não vem me julgar. Você não sabe o que eu passei! Ela [Ana] pode falar à vontade que não sai como barraqueira. Agora eu posso!”.
Mais tarde, Sol aparentou ter uma crise de ansiedade e recebeu apoio de brothers como Babu e Breno, que conversaram com ela como homens pretos e alertaram sobre o risco de “esvaziar” uma pauta tão séria quanto o racismo dentro do jogo.
O papo foi longo, cheio de acolhimento, mas também de alerta: é preciso separar as dores pessoais da estratégia no game. Sol chorou muito, pediu desculpas pelo “descontrole”... e é aqui que a gente precisa voltar no tempo.
Sol Vega tinha apenas 25 anos quando entrou no BBB 4, em 2004. Trabalhava como frentista e via no programa a chance de mudar de vida. Autêntica, expansiva e bem-humorada, ela se jogou na experiência, mas encontrou barreiras pesadas.
Naquela época, o Brasil ainda não tinha o nível de debate racial que existe hoje. Com pouquíssimos participantes pretos na edição, Sol viveu conflitos que deixaram marcas profundas, especialmente com Marcela Queiroz, que chegou a chamar seu cabelo de “pixaim” e fez comentários abertamente racistas na TV.
Anos depois, Sol refletiu sobre isso. "Naquela época eu não tinha uma percepção clara em relação àquelas cenas, de que eu era vítima de racismo. Era uma época diferente de agora e a gente ouvia isso, era uma coisa natural de se ouvir. Tinham várias músicas [racistas] também, não era como hoje, que [muita] gente fala que é ‘mimimi’, mas esse ‘mimimi’ necessário”, analisou em entrevista à Fábia Oliveira, do Metrópoles, no ano passado.
Ela também relembrou as dificuldades após o programa: “De uns anos pra cá, eu fui ter uma percepção muito maior da que eu tinha, de tudo que eu sofri lá dentro [no BBB] e depois quando eu saí. Tiveram vários programas que não queriam me aceitar porque eu não falava direito, por eu ser uma menina preta. Enfim, por várias outras coisas".
Outro momento que virou meme nacional também teve impacto doloroso. Durante uma prova de resistência numa gaiola, Sol cantou “We Are The World” do seu jeito, sem domínio do inglês. A edição legendou de forma caricata, e o “Iarnuou” virou piada recorrente.
O público riu. A internet eternizou. Mas, para Sol, aquilo virou trauma! “O pessoal falava ‘Iarnuou! Canta a música!’. Isso me machucou por muito tempo. Parecia tiração de sarro. Ninguém sabia da minha história", contou em entrevista ao "BBB: O Documentário", da TV Globo.
Depois do programa, ela se formou em artes cênicas e tentou seguir como atriz, com apoio do marido, o italiano Tibério Cavagnini, que morreu em 2022, vítima de complicações da Covid-19. Mesmo com estudo e preparo, as oportunidades não vieram como ela esperava. “Os produtores ainda lembram daquela menina da gaiola. Pensam que eu não mudei. Minha carreira não vingou como eu gostaria", explicou.
Agora, em 2026, de volta ao confinamento, Sol pode estar revisitando tudo isso. Traumas antigos, dores mal resolvidas, a sensação constante de ser mal interpretada. Pelo choro, pelo tom de culpa e vergonha após a briga, fica um lembrete importante: antes da jogadora, existe uma pessoa. Existe uma mulher preta, com dores acumuladas e o medo permanente de ser lida como “raivosa” quando, muitas vezes, só está tentando ser ouvida.
E isso vai muito além do jogo.